sexta-feira, outubro 15, 2010

Infância

É acreditar que tudo é possível. É ser inesquecivelmente feliz com muito pouco. É se tornar gigante diante de gigantescos pequenos obstáculos. Ser criança é fazer amigos antes mesmo de saber o nome deles, é conseguir perdoar muito mais fácil do que brigar. Ser criança é ter o dia mais feliz da vida, todos os dias. Ser criança é o que a gente nunca deveria deixar de ser.
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares e o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.
Sempre agi sem qualquer duvida ou remorso. Sempre fui firme quanto ao que falar ou fazer. Meu comportamento sempre dependeu do meu humor, das minhas vontades, e por mais que nem todas as minhas escolhas tenham sido acertadas, isso justificava e me deixava livre de qualquer arrependimento. Entretanto, nesses últimos dias mal posso reconhecer a menina que miro de relance no espelho. A menina que tenho evitado encarar. Tanta coisa eu preciso dizer, tanta coisa quero fazer. Sentimentos suplicam para sair de dentro de mim. Tudo que eu quero guardar e esquecer que algum dia eu já quis colocar pra fora. Escrevo rascunhos todos os dias. Rabiscos imaginários de cartas que nunca colocarei no papel, esboços de emails e mensagens de celular que prefiro colocar na caixa de não enviadas a apertar o botãozinho verde que as encaminhariam ao seu destinatário. Às vezes temos tanto a dizer, tanto a demonstrar, que nenhuma palavra parece ser mais eficaz do que o silêncio. Às vezes olhos marejados de lágrimas dizem mais do que páginas e mais páginas de textos.

Ignoro burocracias, por vias tortas, alcanço meu intuito sem me importar em ser laureado por isso. Odeio elogios, só os inseguros e com baixa auto-estima precisam de confetes. Não estou interessado em ser reconhecido pelo que faço, estou interessado em realizar o que julgo certo, mesmo quando está errado. Não economizo sinceridade, por isso fujo do contato humano. Falo das formas mais rudes e inteligentes possíveis, exatamente aquilo que acredito. Não me importo em jogar na cara de alguém seus defeitos e fraquezas: com desprezo e pena da espécie humana, sabendo que também os tenho. Falo sempre com dor, pois tenho consciência de que preciso reprimir minhas próprias mazelas para não sair do meu padrão intocável de ética.
Eu sei que sou exatamente o que 98% dos homens não gosta ou não sabe gostar. Eu falo o que penso, abro as portas da minha casa, da minha vida, da minha alma, dos meus medos. Basta eu ver um sinal de luz recíproca no final do túnel que mando minhas zilhões de luzes e cego todo mundo, sou demais. Ninguém entende nada e eles adoram uma sonsa, adoram, mas dane-se, um dia um louco, direto do planeta dos 2% de homens, vai aparecer.
Eu sofro sendo assim eu sofro porque, quando você acha mais da metade do mundo babaca, você passa muito tempo sozinho.
Eu não sou linear eu não sou uma pessoa terminada, eu não quero rótulos nem roteiros prontos, não existe começo nem fim em mim. Eu existo. Não sou produto, sou só coração. Vivo em um meio que me parece eterno. Um meio que me faz escrever, ser e mudar a cada dia. Se eu começasse a escrever minha vida, seria assim: Eu sou reticências. Sou 3 pontinhos. Sou o não-dito. Sou emoção e desejo. Palavras são o meu antídoto. Anti-monotonia, anti mau-humor, anti todo o amor que não há.